CONVERSA COM D.
HELDER
Rio, 01.02.1958. Um longo artigo de capa da Visão
apresentava a multifacetada atividade de Dom Hélder Câmara no Rio de Janeiro:
Assistente Eclesiástico da Ação Católica Brasileira, Diretor do ensino
religioso da Arquidiocese do Rio de Janeiro, Autor de um programa de rádio
diário “O Pão Nosso de Cada Dia”, responsável pela saída dos emigrantes e pela entra dos imigrantes que
entravam e saíam do Brasil, membro do Conselho Estadual de Educação, membro do
Conselho Federal de Educação e, sobretudo, responsável pela urbanização das
favelas do Rio de Janeiro. Diante de tal massa de ações, de gestos, pensei “ou
ele é de outro barro, diferente do meu, ou tem um mistério”. Preferi optar pela
segunda hipótese. Então lhe escrevi: Dom Hélder, faz de conta que o senhor vai
morrer hoje e Deus lhe diz “Ensine a este tudo o que Eu lhe ensinei”. Não
precisa me responder. Vou buscar a resposta pessoalmente. Essa carta estava
sendo escrita do Recife. Eu me apresentava com a modesta pretensão a substituir
Dom Hélder.
Como ia entrar para a Companhia de Jesus no dia 02
de fevereiro de 1958, em Itaici, São Paulo, no dia 1°, estive na casa de Dom
Hélder para a conversa em que me revelaria o seu mistério.
Trim... ouvi o despertador tocar. De repente, sai aquele
homem minúsculo, com batina e sobretudo. Aproximo-me:
-
Dom Hélder, sou o homem do Testamento Espiritual.
-
Ah, sim. Você está livre?
-
Estou.
-
Então vamos esperar
o bonde.
Aquilo me chocou demais. Como é que um homem tão
ocupado ainda tem tempo de esperar o bonde? É que Dom Hélder foi, de fato, um
homem que optou pela pobreza. Nunca possuiu um carro. Nós o vemos, às vezes, no
estribo do bonde, quase a despencar no asfalto . Prefere estar aí, com o seu
Povo, a estar no seu carrão ou mesmo no seu carrinho.
Dom Hélder
perguntou:
-
O que você vai fazer da vida?
-
Vou entrar no noviciado da S. J.
-
Ah, eu também desejei muito ser jesuíta. Quando estava
no Seminário, em Fortaleza, fui várias
vezes a Baturité, onde estudam os
candidatos a jesuíta .E sempre que voltava fisgado por eles, meu Diretor
Espiritual e meu Diretor do Seminário me davam para ler as conferências do
Cardeal Mercier, em que ele exaltava o
sacerdócio cristão por sobre a vida religiosa, coisa que não está conforme ao
ensinamento da Igreja. O padre Leonel Franca, que era meu Diretor Espiritual,
no Rio de Janeiro, disse que eu estava no lugar certo. Não me dei por
satisfeito. Fui ao Padre Aloízio Rioux,
então Provincial dos Jesuítas. E também este confirmou que eu estava no lugar
certo. Aí, uma vez, um franciscano me abordou, dizendo “Tenho uma mensagem do
céu para o senhor: o senhor deve se tornar franciscano”. Então lhe perguntei
“onde estão as credenciais de que a mensagem é mesmo do céu? Tentei,
recentemente ser jesuíta e eles me disseram que eu estava no lugar certo”
Aí Dom Hélder
se voltou para mim e disse:
- Você vai
ter as suas regras. Eu criei as minhas regras. Mas, embora estejamos trilhando
caminhos diferentes, há, entretanto, um núcleo comum a essas diferenças.
E retomamos a
nossa caminhada. Fomos pegar o bonde, mas logo passou um amigo que nos deu uma
carona. E fomos para a Escola de Enfermagem Ana Néri, onde D. Hélder celebrava
diariamente. A celebração era de alguém que via o invisível e este invisível
estaria transbordando de amor e santidade. A sua Missa foi tal que,
embasbacado, não percebi que era chegada a hora de mudar o missal do lado da
epístola para o do Evangelho. Na época havia esta mudança. A Comunhão lembrava
o pelicano que tira do seu peito ensangüentado o alimento para seus filhotes.
Assim tirava ele, da âmbula, bem apertada ao peito, o Corpo do Senhor para
alimentar os caminheiros na sua caminhada.
Terminada a celebração, fomos tomar um cafezinho e conversar.
Dom Hélder, qual o seu mistério? - perguntei-lhe, ansioso. Ele me respondeu:
Eu me esforço
por viver o meu batismo. Está vendo estas mãos? E as apertava uma contra a
outra. Não são minhas, são de Cristo. Está vendo estes olhos – e apontava para
os olhos – não são meus, são de Cristo. Eu só tenho uma tristeza, a de não ser
bastante transparente para que os homens não se detenham em mim, mas vão direto
a Jesus Cristo.
Repliquei:
-
Ótimo. Tudo bem. Mas como chegar lá?
-
Só duas coisas são necessárias: oração e humildade.
ORAÇÃO Deus tem sido muito bom comigo. Eu não preciso dormir muito. Vou
dormir às 23 horas, meia-noite. Às 2 horas me levanto e me apresento ao Pai, em
união com Jesus Cristo, a interceder por todas as pessoas que conheço: o
pessoal aqui da favela, que sai de casa sem ter quem os ame e que cai nas ruas
esquecido e abandonado por todos. E não
apenas daqui da favela. Todos os meus conhecidos, por quem intercedo junto ao
Pai. E não só os conhecidos, Mas os completamente estranhos.. E não só os de
hoje, mas os que virão no futuro. Então, ele se aproximou do meu ouvido e
segredou: “Quando os meus ossos forem pó, ainda haverá gente beneficiando da
minha oração.” Aquelas palavras caíram na minha alma como uma pedra num poço.
HUMILDADE. Ninguém chega à humildade a não ser pela humilhação. E,
ninguém passa pela vida sem 4 ou 5
humilhações de 1ª Classe com oitava privilegiada. E diante de tais humilhações
só há duas respostas: a do pagão, que se revolta, e a do cristão, que se
submete, como Cristo.
Eu estava no Seminário. A
professora de Psicologia começou a ensinar umas barbaridades. Todos ficavam
calados. Até que eu, me levantei e me
pus a contestá-la. A partir daí, no Seminário só se falava em Hélder, Helder,
Helder. Até a Fortaleza intelectual
havia se voltado para a polêmica. Que já transbordara para os jornais. A certa
altura dos acontecimentos, Monsenhor Tabosa, Reitor do Seminário, mandou
chamar-me.
Bati à sua
porta. Ele me convidou para entrar:
-
Ah, eu soube que o senhor está escrevendo uns artigos.
-
Sim, monsenhor. A professora de Psicologia estava
ensinando umas barbaridades. Era preciso que alguém lhe desse uma resposta, era
preciso que alguém, diante dela ousasse defender a nossa fé.
-
Eu tenho uma coisa para lhe dizer:
-
Pois não Monsenhor.
-
O senhor ontem escreveu o seu último artigo.
-
Mas, monsenhor, deixe-me, ao menos, responder ao de
hoje!
-
O senhor, ontem, escreveu o seu último artigo. É só o
que eu tenho a dizer.
-
Aí desabou sobre mim uma grande tempestade: “isso é um
velho rabugento, um alienado, você é que é o defensor da fé, você é que sentiu
as necessidades da Igreja, você é que percebeu os sinais dos tempos e traduziu
essa percepção em ação iluminada....
- Fiquei
profundamente chocado com a oposição intransigente de Monsenhor Tabosa;
inclusive com a perspectiva de sair do Seminário: se teimasse em escrever. Veio lá,
do mais profundo de mim mesmo, o recurso a Maria: minha Mãe, não me deixe sair daqui assim, em
tempestade, daqui assim, eu não saio. E fui me encaminhando pra capela Aí me
lembrei do Evangelho do dia, 29 de
Julho, dia de Santa Marta: “Marta, Marta, por que estais preocupada com tantas
coisas, só uma é necessária”. E de fato, eu estava me preparando para receber a
tonsura, uma coroa que não é de louros mas de espinhos, não é de glória, mas de
ignomínia e eu me inchando de orgulho. Com estes e outros pensamentos, ao longo
de 3 horas fui apaziguando o meu
espírito, recuperando a minha serenidade interior. Por que? Porque acatara a
minha 1ª e maior humilhação, até então vivida, a de 1ª classe com Oitava
privilegiada.. .
Quando saí da capela, percebi que os meus
colegas seminaristas se reuniram no Refeitório para fazer uma manifestação de
apoio a mim e de rebelião ao superior. Ai vivi o maior drama da minha vida:
decepcionar os que me defendiam e alegrar os que me humilharam. Abracei então,
com toda a coragem, com todas as forças, a maior das humilhações vividas até
então. Aos meus colegas que me exaltaram e achincalharam meu superior gritei:
“Bendito o homem que furou o balão do meu orgulho”. Foi um grande balde de água
fria em todos os presentes. Então comentou: “Se eu tivesse me rebelado, teria
perdido a vocação e não sei se também a fé. Mas, o ter-me submetido salvou-me a
vocação, a fé. E Até hoje as maiores graças que DEUS me tem dado tem sido no
dia 29/07, comemorando por assim dizer, a primeira humilhação abraçada de todo
o coração.”
Dom Hélder,
que após o ano de 64, tornara-se um homem proibido aqui no Brasil, não podendo
nem ele falar, nem ninguém falar sobre ele; foi chamado, pelos cinco
continentes a dar o testemunho de sua vida e a iluminá-los com a luz de sua
sabedoria. Ele que fora assim humilhado foi escolhido três vezes consecutivas
para prêmio Nobel da Paz. E por estas três vezes foi impedido de ganhar o prêmio pelas
autoridades brasileiras. Em compensação ganhou o prêmio Popular da Paz, três
vezes mais valioso que o Nobel..
Dom Hélder, que convidara o Padre José Comblin e François Houtard, da
Europa, Padre Henrique Cláudio da Lima Vaz e Alceu Amoroso Lima, do Brasil,
para refletirem sobre temas do concílio, e fora proibido por seu superior
eclesiástico D. Jaime de Barros Câmara e teve que mandar de volta os teólogos
europeus, passando um grande vexame, este D. Helder foi reconhecido por
pesquisa de padres suíços como a personalidade mais influente do concílio. Os
homens sempre quiseram humilhá-lo, mas DEUS sempre o exaltou.
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